quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Uma nota

Dois textos que julgo magníficos do crítico e teorista Dominique Païni, sobre o caráter fragmentário e "suspensivo"- do inacabamento, como ele se refere- do cinema moderno ( mas não só), analisado nas obras de Duras, Akerman, Garrel, Rivette, Ruiz e Harry Langdon (!). E o crème de la créme é uma obra-prima de elegância, erudição e insights fulminantes sobre Vertigo de Hitchcock. Não costumo exercer a função de crítico aqui, este espaço se reserva à exposição e publicização de textos que julgo essenciais, etc., sobretudo num país como o nosso que definitivamente não tem critério/senso para saber o que traduzir em matéria de crítica de cinema- se é que faz idéia do que seja isso, e o pouco que faz o faz cada vez mais porcamente, com revisões nulas, tradutores semi-anafabetos, etc. Modestamente, aqui vocês vão sempre contar com alguém que sabe o que está fazendo.

Em relação a Vertigo, ouso dizer que Païni pegou o gato pelo rabo, e destrinchou todos os seus trompe l'oeils, visuais, analíticos, estruturais, míticos e imaginários.

Seguinte: o cara descreve o que pra mim sempre foi literalmente assombroso naquele filme: a lógica do fantasma. Há uma lógica da mercadoria- em que nada vale em si, mas em troca e em lugar de outra coisa, lógica esta epitomizada pelo sistema abstrato do dinheiro. Mas há também uma lógica do fantasma, em que a presença só vale enquanto ausente, em que ambas jogam – a carta que se achou e torna presente o primeiro namorado, o braço perdido que ainda dói, a filha que se apaixona por um marido que na verdade é seu pai- mesmos cabelos, olhos, ethos; e a Ausência é a Mater Tenebrae de todas as presenças, o grande vaccuum que perpetua a ronda mortífera das mesmas imagens - se quiserem confirmar, leiam Freud sobre recalque: Quanto mais ausente da consciência estiver um trauma- um estupro, por exemplo-, mais presente ele estará, e se inscreverá (écriture) no corpo-texto, sob a forma de sintoma ( significante).

Esta é a lógica de Vertigo: sombras, duplos, espelhos, meios perfis; jamais presença íntegra, frontal e tridimensional; apenas vestígios e projeções. Ausências travestidas de presenças, fantasmas mascarados de amantes, Thanatos de Eros. Nosso outro misantropo fascinado por fantasmagorias, Kubrick vai reeditar esta mesma lógica em sua última e mortificante obra-prima, Eyes wide shut; mas aí será um baile de fantasmas para falar de outro fantasma (uma fantasmagoria metalingüística, digamos): o fantasma da mercadoria, encarnado (?) hoje na imagem publicitária (Cruise, Kidman, casalsinho do ano, Natal em Nova York, e espelhos, muitos espelhos, pra Narciso mirar antes de cair n’água, puf!).

Divulguem enlouquecidamente pelas redes da vida- que geralmente só divulgam os peidos respectivos dos respectivos facebookianos, mas tudo bem-o quanto puderem, pois isso deu um trabalho insano. Comentários, agradecimentos, votos de Bom-ano e garrafas de Chateau-Lafitte serão sempre bem-vindas, etc.

E como dizem as bilheteiras que nunca devem ter visto um bom filme: Bons textos. E bom Natal.

1 comentários:

Rafa Amaral disse...

Olá amigo cinéfilo! Vertigo é o meu preferido de Hitchcock. Um filme sobre obsessão, transformação. Um filme que se revela cada vez melhor. Aproveito a visita aqui para divulgar um site que acabo de estrear, exclusivamente ao cinema. Contém críticas, análises, fotos de bastidores e coisas raras. E, logo, contará também com entrevistas com especialistas. Passe por lá. Abraços.

O site: www.cinemavelho.com

O twitter do site: twitter.com/cinemavelho

Rafael Amaral